Na minha experiência participando de planejamentos de cursos e treinamentos, há uma pergunta que raramente aparece, mas que tenho considerado como uma das mais importantes: quanto tempo está sendo destinado para que as pessoas que estão ali pratiquem o que está sendo ensinado?
A resposta que tenho a dar a essa pergunta, com base na minha vivência, é: geralmente é destinado pouco tempo, ou mesmo nenhum. E um dos motivos principais é que a aprendizagem ainda é compreendida, em muitos contextos, como passar conteúdo, e bastante conteúdo, por sinal. Por esse motivo, o planejamento de aulas e treinamentos costuma considerar dois fatores: os temas que precisam ser abordados e qual o tempo disponível. A consequência disso é que o cronograma acaba sendo tomado pelo conteúdo em slides, alguns exemplos de aplicação e, com sorte, alguma abertura para discussão e prática que, quando existe, costuma aparecer no final, quando o tempo já está curto e o nível de energia do grupo, menor.
Ouvir e compreender é importante, mas não é suficiente. Especialmente quando o público tem pouco ou nenhum conhecimento prévio do que está sendo abordado. A recepção passiva de muita informação tende a gerar sobrecarga cognitiva e não fará com que o conteúdo se consolide na memória de longo prazo.1
O quanto do tempo de um curso ou treinamento está de fato sendo usado para que as pessoas façam, apliquem e não apenas ouçam?
Para quem planeja ou facilita processos de aprendizagem como aulas, cursos, treinamentos e workshops, entre outros, essa é uma reflexão que vale ser feita antes de fechar qualquer cronograma. É o tipo de pergunta que pode reorganizar prioridades. Se o objetivo é que os participantes consigam aplicar o conhecimento, o que orienta o planejamento não é "qual conteúdo preciso apresentar?" mas "como vou fazer com que essas pessoas pratiquem esse conteúdo de forma a auxiliar na consolidação e na capacidade de aplicação dele?"
Isso implica, muitas vezes, abrir mão de conteúdo. Falar menos para permitir que o que for falado seja praticado. Isso não significa que menos conteúdo automaticamente resulta em mais aprendizagem, significa que sem essa decisão, a prática dificilmente acontece. É uma escolha que vai na contramão da expectativa de alguns contratantes de treinamento, que querem ver bastante conteúdo sendo entregue, mas que está mais alinhada com o que a ciência da aprendizagem mostra sobre o que é necessário para se aprender. E como decidir o que falar e o que cortar? Esse pode ser um assunto para uma nova parte dessa sequência.
Para quem não atua ministrando ou planejando treinamentos, mas como participante, a reflexão é diferente. Sempre vale a pena se perguntar: está claro para mim como aplicar esses conceitos? Não apenas explicá-los, mas o que fazer com eles? Como colocá-los em ação?
Se a resposta for não, o primeiro passo está ainda dentro do próprio curso: buscar esclarecer enquanto ainda se está participando, tirando dúvidas e pedindo exemplos. Mas não apenas isso. Será preciso continuar aplicando e praticando quando o treinamento acabar.
Nenhum treinamento, por melhor que seja, substitui a prática no contexto real. Ele pode preparar, estruturar e reduzir a distância entre o desconhecimento completo de uma informação e o que fazer com ela. Mas quem fecha o percurso de aprendizagem é o participante, no momento em que decide aplicar o que foi estudado, mesmo que ainda com insegurança. E insegurança haverá, porque começar a aplicar algo novo consiste em enfrentar situações novas e desconhecidas. Modificar aquilo que sempre se fez também vai gerar desconforto e vontade de voltar ao caminho seguro e conhecido.
Lembra do atendente que não aplicou o que viu no treinamento de atendimento ao cliente? (Parte 1) Até certo ponto, a limitação foi da metodologia do treinamento. A partir de certo ponto, a escolha foi dele mesmo. O que aquele atendente fez foi não agir diante da oportunidade real que tinha de aplicar as técnicas de atendimento. O sentimento provável? Insegurança. E a insegurança, quando não é enfrentada com ação, tende a se confirmar.
Para que você possa continuamente aumentar sua capacidade de aplicar algo que está aprendendo, escolha uma situação real nos próximos dias e aplique, pratique, observe o que funcionou e o que não funcionou, busque um retorno de alguém de confiança e tente de novo. Esse ciclo, quando repetido, é o que transforma algo que foi entendido em algo que pode ser realizado. Que gera confiança e desenvolve habilidade.
Pergunta de aplicação: Pense no conteúdo de algum treinamento ou curso do qual participou recentemente. Pensou em uma situação real para aplicar o que foi abordado? Se ainda não, reflita: qual seria a próxima oportunidade concreta para aplicar aquilo?
Compreender é importante. Aplicar é necessário para gerar aprendizagem real. É o que traz resultados diferentes. E ao aplicar, compreende-se melhor. A ação reforça a compreensão.
O que você pensa a respeito disso? Qual é o seu ponto de vista?
1 Sweller, J. (1988). Cognitive load during problem solving: Effects on learning. Cognitive Science, 12(2), 257-285. O estudo fundamenta a teoria da carga cognitiva, mostrando que a memória de trabalho tem capacidade limitada e que apresentar informação sem condições de processamento ativo compromete a consolidação do aprendizado.
Leitura que aprofunda este tema
Um dos livros de referência para quem atua em T&D. Stolovitch e Keeps partem exatamente da distinção entre informar e desenvolver e constroem, ao longo de cada capítulo, uma argumentação fundamentada sobre o que de fato produz aprendizagem no contexto profissional.
Esta obra vai ajudá-lo a:
- → Identificar em quais momentos um treinamento transmite informação em vez de desenvolver habilidade
- → Analisar se o que está sendo medido ao final de uma formação é reação, aprendizagem ou mudança de comportamento
- → Planejar experiências de aprendizagem a partir do comportamento esperado, e não do conteúdo a ser transmitido
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Profissional de aprendizagem com atuação em T&D corporativo e alfabetização. Especialista em design de experiências de aprendizagem e método fônico. Escreve sobre o que a ciência da aprendizagem pode fazer pela educação de adultos e crianças.
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