Ao longo do tempo em que trabalhei na educação básica, convivi com muitas crianças e adolescentes com dificuldade na leitura, que não tinham alcançado a capacidade de ler e interpretar textos de forma autônoma. Naquele período, essa era uma das situações mais difíceis para mim, principalmente porque eu pouco podia intervir. Embora eu atuasse na coordenação pedagógica, e cuidar da aprendizagem dos alunos e realizar intervenções fosse, no papel, uma das minhas atribuições, sobrava pouco ou nenhum tempo para isso. A coordenação era tomada por outras demandas (acho que quem já esteve ou está nessa posição provavelmente concordará), mas isso é conversa para outro momento.

Na minha experiência, uma das coisas que eu mais presenciei foram professores empenhados no processo de alfabetização. Sempre propondo mais atividades, reforço extraclasse, entre outras iniciativas. Mas a falta de eficácia das intervenções me deixava intrigada. Eu acabei deixando a educação básica, anos se passaram, mas não deixei de querer continuar estudando sobre a alfabetização.

Olhando para trás, acredito que a falta de eficácia era, em parte, resultado de intervenções inadequadas. Tomando como base a formação que recebi no ensino superior e o que tenho estudado desde então, tenho razões para acreditar que muitos dos profissionais que foram e estão sendo formados não recebem o conhecimento necessário para atuar de forma eficaz na alfabetização. Os dados de desempenho não demonstram isso diretamente, mas são um sinal de que algo no processo não está funcionando.

Quando decidi retomar meus estudos, percebi, então, que o que eu vivenciei não era uma exceção. Há déficits na base da alfabetização. O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), embora não teste a alfabetização infantil em si, mede se jovens na faixa dos 15 anos possuem proficiência leitora suficiente. Na última edição (2022), o Brasil permaneceu nas últimas posições do ranking.1 Isso significa que grande parte dos jovens está chegando ao fim do Ensino Fundamental sem a capacidade de ler, compreender, interpretar e usar um texto no dia a dia.

Para tentar corrigir os déficits na base, o Brasil instituiu o Indicador Criança Alfabetizada, que mede a porcentagem de alunos alfabetizados até o final do 2º ano do Ensino Fundamental. Atualmente, 66% das crianças estão alfabetizadas ao final do 2º ano, por volta dos 7 anos de idade.2 Embora o MEC celebre o número por ter superado a meta interna de 64%, em termos práticos, uma em cada três crianças brasileiras ainda termina o 2º ano sem saber ler, compreender e produzir textos simples. E essa defasagem inicial vai cobrar o preço mais tarde.

Muitas vezes, as crianças chegam ao 1º ano do Ensino Fundamental (aos 6 anos) sem as habilidades anteriores que são importantes para o aprendizado da leitura. O processo de aprender a ler começa muito antes de a criança aprender as letras. Aliás, aprender as letras não é o único ponto de partida do processo de aprendizagem da leitura, e, isolado, não é suficiente. "B com A não é igual a BA" (pelo menos não ainda). Antes de aprender o alfabeto e unir letras, a criança precisa ter desenvolvido outras habilidades fundamentais que são parte de um processo que começa (ou pelo menos deveria) começar cedo.

O contato com as letras é apenas parte de um processo que já deveria estar em curso bem antes do 1º e 2º anos.

Se você é profissional da educação, meu objetivo é contribuir para que você amplie seus conhecimentos sobre o que a ciência vem demonstrando a respeito da leitura. Se você não é profissional da educação, mas tem alguma motivação para entender a alfabetização, seja para acompanhar o desenvolvimento dos seus filhos ou de alguma criança próxima, esse conhecimento é igualmente importante para você (espero que você tenha sido convencido pelos tristes dados que foram apresentados). Se você é pai ou mãe, acredite: não é necessário esperar a escola. E não é necessário ser especialista para fazer algo.

Pretendo abordar esse tema aqui porque é um tema que me interessa muito, que preciso aplicar e me apropriar cada vez mais no meu cotidiano, e que, na minha avaliação, merece muito mais atenção do que recebe. Este é o primeiro texto de uma série sobre ciência da leitura e alfabetização. No próximo, vou começar a nomear e explicar quais são essas habilidades fundamentais, o que são, e o que podemos fazer para desenvolvê-las.

Pergunta de aplicação: Você sabe quais são as habilidades que a criança precisa desenvolver antes mesmo de aprender o alfabeto? Se você é profissional da educação, esse conhecimento fez parte da sua formação? Se é pai ou mãe, já pensou o que você pode fazer a favor da alfabetização dos seus filhos?

O conhecimento sobre como as crianças aprendem a ler existe. O que falta, muitas vezes, é que ele chegue até quem pode fazer uso dele.

O que você pensa a respeito disso? Qual é o seu ponto de vista?

1 Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Resultados do PISA 2022. Disponível em: gov.br/inep

2 Ministério da Educação (MEC) / INEP. O Indicador Criança Alfabetizada vai além da decodificação mecânica e exige competências iniciais de fluência, compreensão leitora e produção de texto. Dados de desempenho disponíveis em: gov.br/mec. Sobre o indicador: gov.br/inep/ica

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Capa do livro Consciência Fonológica em Crianças Pequenas
Consciência Fonológica em Crianças Pequenas
Marilyn Jager Adams, Barbara R. Foorman, Ingvar Lundberg e Terri Beeler

Uma das referências mais completas e práticas sobre o desenvolvimento da consciência fonológica em crianças pequenas. Inteiramente adaptado à realidade e à língua portuguesa, o livro apresenta atividades estruturadas e progressivas para o desenvolvimento das habilidades fonológicas que sustentam a aprendizagem da leitura e da escrita.

Esta obra vai ajudá-lo a:

  • Compreender o que é consciência fonológica e por que ela importa para a aprendizagem da leitura
  • Identificar as habilidades fonológicas que precisam ser desenvolvidas em cada faixa etária
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Gabi Resende
Gabrielle Resende

Profissional de aprendizagem com atuação em T&D corporativo e alfabetização. Especialista em design de experiências de aprendizagem e método fônico. Escreve sobre o que a ciência da aprendizagem pode fazer pela educação de adultos e crianças.

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